Domingo, Novembro 14, 2004

Fim do despique

Cansado, faminto, não tive como não voltar à Ti Lena. As eleições na América, o fim da austeridade até 2014, foram golpes demasiado profundos para resisitir à ausência do meu tasco. Abri a porta das traseiras, a medo, e mal se vislumbrou o meu rosto na cozinha, ouvi Ti Lena a gritar:

És tu que vejo meu traste
Como tu podes aqui voltar?
Não viste que desgraçaste
Quem não pode ainda votar?

Ajoelhei-me naquele mesmo momento, pedindo perdão, clemência, rogando:

Tia minha, não o sendo
Já também ninguém vota
Mesmo assim o pudendo
Nada conta, ninguém nota

Pegando no cutelo que estava na mesa, vem ela para mim e retorque:

Não quero saber de eleições
Quando minha filha é violada
Hoje vais ficar sem colhões
E Susaninha ficará honrada!

Juntei minhas mãos em prece e chorei este versos:

Que não violei ninguém
E tudo deixei inteiro
Quanto à honra, porém
Nem sequer fui o primeiro.

E ao acabar de dizer estas palavras, eis que vem a própria ninfeta. Diz esta, lavada em lágrimas de crocodilo:

Tanto mentes, que agora
Metade de mim já sou
Como mentiste na hora
Que minha pureza findou.

Vendo assim meu triste fado e adivinhando minha carreira futura de fadista eunuco, virei-me para elas e cantei, este fado, que nem cisne:

Minha querida Susaninha
Fonte de pecado que é o meu
Sabes bem que essa coninha
Todo este bairro já correu.

E eu que não engano ninguém
Nem no palco, nem na cama
Não deixo a minha vida sem
Cantar esta última trama.

Pois se a filha, minha querida
Entre as pernas, tudo encanta
A mãe que lhe entregou a vida
Também não é nenhuma santa.

Cutelo a afiar

Era sempre uma grande farra
Quando nós, já bebados a cair
Víamos quem metia a guitarra
Por onde havias tu de sair.

Cutelo afiado

Era a guitarra, a viola, o violão
E quem viesse por mal ou bem
Sendo essa a única e triste razão
Para não teres pai, só uma mãe!

Cutelo ensanguentado

E fica, sabendo que sou eu
Teu pai, que aqui morreu...
Susaninha
Filha minha...

Lágrimas no cutelo

Morreu o fadista
Viva o fadista

(Vingas-me ò Zé?)

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Não há pai pó Marcelo, há Paes (e mães) para mim.

Vamos a isto, que este tem destinatárias!

Não chega o professor
Ter sido do ar retirado
Como este vosso cantor
Também ele, censurado!

E se daquele mediático caso
Só hoje toda a dúvida morreu
Aqui fica com pouco atraso
O triste que a mim sucedeu.

Estava eu numa outra tasca
(A Ti Lena, quer me matar)
Quando ouvi que era rasca
Meu vernáculo ao despicar.

Zé, fala lá com a Ti Lena, que eu não sobrevivo a cozinhar...

Vendo o estado delicado
De quem leva um fardo farto
Decidi permanecer calado
Não fosse apressar o parto.

Ora, estava isto já esquecido
Quando o telefone se ouvia
E lá me entrou pelo ouvido
A crítica da minha senhoria.

Mas a especulação imobiliária
Dá cabo de qualquer carteira
E não fosse esta, ficar solitária
Foi-se Susaninha da minha beira.

Juro, Ti Lena, juro!

Agora a tristeza perdura
Pois fiquei sem cantoria
E a sempre futura escritura
Não tem ainda certo dia.
É assim viver a censura,
Leva-nos toda a alegria.

Terça-feira, Outubro 19, 2004

Triste sina, Susaninha

Enquanto ia passando os dedos pelas rugas que os lençóis iam fazendo, olhava-a pelo espelho enquanto ela se ia vestindo de costas para mim, mas de frente pelo reflexo. Ao ver seu sorriso, meio envergonhada na sua quase nudez, não pude deixar de começar a pensar no que eu havia feito. Soube portanto, que o meu tempo de arrependimento estava a chegar.

Porque não há fadista
que não viva arrependido
como fado algum exista
que cantado tenha destino

Enquanto ela fechava a porta atrás de mim, estava já eu a escrever este fadinho que vos deixo, mas que por agora não canto.

Enquanto o Zé não despicar
Recuso-me a cantar

Cá vai então, aproveitanto a melodia que a Amália popularizou no seu “Nem às paredes confesso”, canção de Ferrer Trindade e Artur Ribeiro, justiça lhes seja feita.

Não feches a porta assim
Que eu fico só, e a pensar
Será que houve erro em mim
Em por estes caminhos a levar

Não é que houvesse dano
Em eu brincar com a petiz
Mas há sempre um pai puritano
Que gosta de se armar em juíz

Podes julgar, podes marcar, podes sonhar até
Mas só quando eu quero, só quando é que eu quero é que há falta

Não sei se foi certo ou errado
Mas sei que virá sentença
Só espero é que o magistrado
Seja aquele de Benquerença

Não vou dormir, nem sossego
Pois dentro da baliza já mora
E só mesmo um fiscal cego
Para deixar Ti Lena á nora

Podes julgar, podes marcar, podes sonhar até
Mas só quando eu quero, só quando eu quero é que é golo

Porque não há fadista
que não seja benfiquista.


E mesmo triste, tenho dito!


Terça-feira, Outubro 12, 2004

Interceptada conversa telefónica de Santana Lopes a Marcelo !!!

Santana Lopes:
"Dádinho o cáralho, meu nome agora é ZÉ Piquêno!"

Marcelo:
-Silêncio-

Domingo, Outubro 10, 2004

Indignado, com este fado

Estava eu fazendo as contas a quantos copos três ainda me faltavam antes de partir para um fadinho mais quentinho
a filha da Ti Lena, sempre me alvoraçou o espírito e o branco velho que a mesma me traz sempre lhe põe mais uns aninhos em cima
quando oiço um freguês mais a dar pó parvo có costume a contar a seguinte graçola:
Sabem qual é o melhor sogro do país?
- Santana Lopes...pois vai deixar tudo à nora!
Não bastasse o vinho que me ia toldando a visão, tinha de vir aquele rapazola estragar-me aquela pura e ninfítica aparição. Fiquei obviamente com vontade de o puxar para um despique, mas como tenho um acordo com o Zé Plebinho
onde andam teus fados,
onde os tens guardados?

Decidi responder-lhe corrido pois o tipo não merecia melhor! Vai daí, começo:
Olha lá ó rapazola,
levantei-me, alisei o casaco, prendendo-o firme com as mãos
terás tu noção do que representa esse senhor para todos nós? Do quão importante ele é para o país que vamos tendo? O que ele representa para aqueles mais novos que eu e com mais juízo que tu?
Rapaz sentou-se ainda a sorrir, mas achando cada vez menos piada à situação.
Fica tu sabendo que o senhor de quem escarnas é um farol de esperança para todos nós! E não é que o mereças, mas passarei a explicar porquê, pois guardo a esperança que no fim disto sejas um pouco mais consciente do que dizes.
E também porque a rapariga se ia aproximando de mim com mais um copinho e eu ia gostando da coisa.
Alguém que começa um mestrado e não o acaba,
Alguém que é secretário e sai por não ser ministro
Alguém que leva o leão a ronronar
Só este último era razão para vários monumentos nacionais e loas por toda a parte
Alguém que concorre para mandar a brincar e ainda assim, perde
Algúem que deixa um buraco no chão maior que o tamanho do buraco no orçamento municipal
Alguém que depois de tudo isto e o resto que não tenho paciência para te explicar, consegue ser nosso primeiro, é um elogio a todos nós. Todos nós!
Porque se ele consegue, todos nós seremos capazes de fazer o que nos der na real gana! É um elogio à nossa capacidade de realização, independemente do facto de sermos incompetentes ou paranóicos em relação a tentativas de homícidio disfarçadas de convites. Até tu podes um dia aspirar a ter piada!
Todos riram, menos o próprio que afinal não tinha sentido de humor...
Até eu, que só um copo ao fim da noite consegue alegrar e cantar o lindo sorriso desta jovem a meu lado
Estás no papo, minha filhinha que vais corando
pode sonhar que um certo dia, um fado meu, possa ser cantado por uma Susana Aguiar
que me roubou o coração e que é tão parecida contigo, homónima dessa outra...Susaninha...quando for tua mãe à cozinha, levas este pobre coitado a casa, não levas? Diz que sim...diz...que
E quanto ao resto,
Estava a dizer qualquer coisa a alguém
já não me lembro.

Quarta-feira, Outubro 06, 2004

O que é que eu vou fazer, domingo à noite?

(Título apropriadamente adaptado de Nélson Ned)

Zé, tu assenta-te que este até revira a prósta!
Cá vai!

Tristes fados estes meus
Lágrimas caem, má sorte
São todos pesados adeus
Prá'queles beijados pla morte.

(Este é triste Zé, que não me alegro desde aquelas iscas...)

Ainda tenho em mim presente
Caixão vermelho, tão belo
E sinto já novo ausente
De seu nome, Marcelo.

Foi este morto por seus pares
Mas não o pegaram pela fronte
Foram assuntos parlamentares
Que o apanharam pela ponte.

(Sei que já num ligas à rima, mas apanha esta que é múltipla!)

Não haverá mais falatório
Porque tinha de vir um otário
Contradizer o qué incontraditório.
Ora no domenical comentário
Não haja nada de ilusório
É pessoal, logo aí sectário
Nada tem a ver com o opróbrio
Daquele do governo partidário!

Descanse em paz, Professor...

(Sempre sonhei com um fadinho onde houvesse um opróbrio....)

E tu ó Zé, que me dizes a isto?

Terça-feira, Outubro 05, 2004

Fodidinho Fadinho

Triste sina vê-lo assim
Que sorte vil degradante
E não é que um bando de rolas
Atacou o avião do Presidente

(A gerência informa que Putin no fim fodia a rima)
(Já é costume dizem os Tchechenos)


Pois a ala esquerda dá pulos , urros e gritos
Vê-se luz no horizonte
O Carvalhas vai bazar
A Pide vai pró monte

(Ti Chica, os couratos deram-me azia)

Todos queriam o poleiro, na quinta socialista
Era um burro , uma vaca e um pato
O Sócrates arrimou com os três
Tou mesmo fodido com esta sandes de courato

Uns dizem-no novo e sechí
Mas antes bebia-se cerveja, bagaço, copinho de 3
Agora as betas enshotam-se até aos entrefolhos
Foda-se já pisei merda outra vez

(ÓH Ti Chica , já lhe disse para tirar daqui o cão)
(Foda-se ninguém respeita os artistas)

Enfim nesta terra quem cá cava
Ganha calos nas mãos
O Avelino enrabará o Conde
E eu estou mesmo mal disposto

(Olha não rima mas também que se foda!)

Óh! amigo Marceneiro! , enxota aí o cão que está a
estragar o negócio á puta do 1º esquerdo !
(Temos que ser uns prós outros)


;)

Foda-se !!!

Fadinho fodidinho

Findas as iscas, vamos ao que interessa.

Nosso Fialho foi pó caralho
Haja paz pá sua rubra alma
Mas não haverá aqui calma
Enquanto não sair este ralho!

(Deslarga-me, ó Zé!)

Um ano já quase todo passado
E logo aí acendi as minhas velas
Esperando que em Bruxelas
Vissem o que se tinha passado.

Não viram na nossa nova Luz
Nosso primeiro a ser vaiado.
Nem nosso Fialho, coitado
Pregando-se na sua cruz.

Pois sozinho teve de suportar
Sessenta mil vaias no coração
Dirigidas não a si, não, não
Mas àquele que tentava falar.

(Devagarinho agora, que vai rima aos soluços)

Ficando assim ferido de morte
Acabou seus dias, por agora.
Seu assassino, deu logo o fora
Fugindo pó Norte, com sorte.

E ao Fialho vem o presente primeiro
Tentar agradecer por todos Nós.
Mas, como pode usar Nossa voz
Se nenhum votou no seu poleiro?

E agora que me dizes a isto, ó meu?